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ENAMED expõe a formação médica no país e COSEMESC reage em defesa do futuro da medicina catarinense

Avaliações só têm valor quando produzem consequências. Proteger a formação médica é, acima de tudo, proteger a vida.

A divulgação dos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) acendeu um sinal de alerta incontornável: a qualidade do ensino médico no Brasil está em risco. Cerca de 30% dos cursos avaliados apresentaram desempenho insatisfatório. Trata-se de uma constatação grave: estão sendo diplomados médicos sem a preparação técnica necessária para exercer a profissão com segurança. E, quando a formação falha, a sociedade paga o preço.

Em Santa Catarina, o resultado também exige resposta firme. Nenhum curso alcançou o conceito máximo, embora alguns tenham obtido desempenho bom ou satisfatório. Por outro lado, dois cursos catarinenses receberam a nota mínima e passarão por supervisão do Ministério da Educação. A maioria ficou em níveis intermediários, um dado que, para um estado com tradição de excelência, precisa ser encarado como preocupante.

Nosso Estado apresenta há anos indicadores educacionais, sociais e de desenvolvimento entre os mais altos do país. Não podemos aceitar passivamente o resultado do ENAMED, mesmo reconhecendo que a metodologia do exame requer aperfeiçoamentos, inclusive para evitar distorções ou boicotes, como vem sendo comentado em bastidores de algumas instituições.

Para o Conselho Superior de Entidades Médicas de Santa Catarina (COSEMESC), é inaceitável que o futuro continue refém da abertura desenfreada de cursos de medicina, descolada de critérios técnicos e de compromisso com a qualidade. O resultado do ENAMED não pode ser relativizado. Ele revela fragilidades estruturais e exige responsabilidade direta das reitorias e coordenações de cursos. É preciso perguntar: o que tem sido feito para garantir ensino qualificado? Onde estão os internatos estruturados, os hospitais de ensino, o corpo docente comprometido e qualificado e os projetos pedagógicos alinhados às Diretrizes Curriculares Nacionais?

As entidades médicas querem estar ao lado dos coordenadores de curso, contribuindo com o aperfeiçoamento da formação médica. Afinal, essa responsabilidade que lhes foi confiada envolve prestígio pessoal, a confiança das instituições e, sobretudo, a resposta que deve ser dada à sociedade. É o coordenador, pela função que ocupa, quem pode ser fator decisivo na transformação da realidade do ensino médico. O investimento, esforço dos alunos e a credibilidade da profissão dependem, em parte, da atuação consciente, ética e comprometida desses colegas médicos.

O COSEMESC acompanhará com rigor e constância esse cenário. Uma agenda de trabalho está em andamento com nossos diretores e assessores, totalmente voltada à análise dos resultados, a visitas e à cobrança de providências das instituições com baixo desempenho e à defesa de mudanças estruturais. O COSEMESC utilizará todos os mecanismos legais, institucionais e políticos ao seu alcance. Porque avaliações só fazem sentido quando geram consequências reais.

Aos estudantes de Medicina, o recado é claro: vocês não estão sozinhos. Vocês têm o compromisso de estudar, de se dedicar ao aprendizado médico. O COSEMESC está ao lado de quem estuda e deseja se formar com dignidade. A culpa por falhas na formação não pode recair somente sobre o aluno, mas sobre as instituições que oferecem cursos sem a infraestrutura necessária e sobre os órgãos reguladores que falham em fiscalizar. O COSEMESC continuará atuando para que nenhum futuro médico seja prejudicado pela negligência de quem deveria zelar pela qualidade do ensino.

É preciso também lançar luz sobre os valores exorbitantes cobrados pelas faculdades de medicina. Onde está o retorno às famílias? Que tipo de profissional está sendo entregue à sociedade em troca de mensalidades que ultrapassam os R$ 10 mil? O risco é claro: estamos empurrando jovens médicos despreparados para um mercado cada vez mais exigente e sujeitos, portanto, a falhas técnicas e riscos jurídicos.

Nos últimos anos, o COSEMESC se posicionou de forma firme e consistente contra a abertura descontrolada de escolas médicas e o aumento de vagas sem o devido rigor avaliativo. Essa luta permanece. É inadmissível que a medicina se transforme em produto de prateleira, entregue por instituições frágeis e, por vezes, desassistidas de investimentos, inclusive as públicas, que outrora foram referência nacional.

O ENAMED não é apenas uma avaliação. É um divisor de águas. Ou o país enfrenta com seriedade os desafios da formação médica, ou assistirá, inerte, à consolidação de uma medicina precária, frágil e insegura. Santa Catarina tem a chance e a responsabilização de liderar essa virada.

O COSEMESC está preparado para isso. Com independência, coragem e compromisso público, seguirá sendo um espaço legítimo e atuante de debate, fiscalização e proposição sobre o ensino médico no estado. Porque assegurar a qualidade da formação médica é garantir um sistema de saúde mais seguro. E proteger o adequado exercício da medicina é, acima de tudo, proteger a vida.

 

Santa Catarina, 12 de fevereiro de 2026.

 

Associação Catarinense de Medicina – ACM

Academia de Medicina do Estado de Santa Catarina – ACAMESC

Conselho Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina – CRM/SC

Sindicato dos Médicos da Região Sul Catarinense – SIMERSUL

Sindicato dos Médicos do Estado de Santa Catarina – SIMESC


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