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COSEMESC debate formação médica em Mafra após conceito 1 da UnC no Enamed

O Conselho Superior das Entidades Médicas de Santa Catarina (COSEMESC) esteve em Mafra nesta quarta-feira, 19 de agosto, para discutir a qualidade da formação médica no município e os resultados obtidos pela Universidade do Contestado (UnC) no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A instituição recebeu conceito 1 na avaliação realizada em 2025, o menor nível da escala, resultado que acendeu um alerta entre as entidades médicas catarinenses.

A iniciativa tinha como objetivo buscar informações sobre os fatores que levaram ao desempenho insatisfatório e conhecer as medidas adotadas pela instituição ao longo deste ano para melhorar a formação dos acadêmicos antes da nova edição do exame, prevista para 13 de setembro. O COSEMESC buscou, em diferentes oportunidades, estabelecer diálogo com a universidade e com a coordenação do curso de Medicina, mas não conseguiu concretizar o encontro.

Diante das sucessivas tentativas frustradas, o COSEMESC decidiu manter a agenda em Mafra, reunir médicos da região e convidar também representantes da universidade e estudantes para discutir o cenário da formação médica. A intenção foi ampliar o debate e tratar de um tema que ultrapassa os limites da instituição: a qualidade dos profissionais que chegam ao mercado e, consequentemente, a segurança da assistência prestada à população.

Em março, o COSEMESC esteve em Jaraguá do Sul para tratar de situação semelhante, após a Faculdade de Medicina do Instituto de Educação Médica (IDOMED) também obter conceito 1 no Enamed. Na ocasião, a entidade foi recebida pela coordenação do curso, que apresentou as medidas adotadas para enfrentar o resultado e aprimorar a formação dos estudantes.

Em Mafra, a reunião foi aberta pelo coordenador do COSEMESC e presidente do Sindicato dos Médicos de Santa Catarina (SIMESC), Vanio Lisboa, que apresentou aos médicos presentes informações sobre o Enamed e o atual cenário da avaliação dos cursos de Medicina no país. Também foram abordadas as discussões em torno do Profimed, proposta de exame de proficiência médica que busca estabelecer critérios para o ingresso do recém-formado no exercício profissional.

Vanio destacou que a expansão acelerada do número de escolas médicas tornou ainda mais necessária a existência de mecanismos efetivos de avaliação e responsabilização. O Brasil passou de 29 cursos de Medicina, em 1960, para cerca de 500 atualmente, com aproximadamente 70% das instituições pertencentes à rede privada. Para o coordenador do COSEMESC, o crescimento da oferta não pode ocorrer sem mecanismos capazes de garantir que os estudantes recebam formação compatível com a responsabilidade que terão ao exercer a medicina.

“Se não houver consequência para a faculdade, sinceramente, nós vamos patinar. A consequência precisa atingir quem tem responsabilidade pelo ensino”, defendeu Vanio.

Na avaliação dos participantes, o resultado do Enamed não pode ser tratado apenas como uma nota atribuída aos estudantes. Para as entidades médicas, um desempenho insuficiente também deve provocar consequências para as instituições responsáveis pela formação. Entre as medidas discutidas estão a redução ou restrição de vagas e outras formas de responsabilização que estimulem as universidades a corrigir deficiências estruturais, pedagógicas e de corpo docente.

O diretor de Comunicação e Imprensa do SIMESC, Renato Polli, ressaltou que o resultado da avaliação e a ausência de diálogo da instituição com as entidades médicas tornam a situação ainda mais preocupante. Para ele, a discussão precisa considerar os reflexos que eventuais deficiências na formação podem trazer para o exercício profissional e para a assistência à população. “Uma avaliação tão baixa não pode ser ignorada. Quando as entidades médicas também não conseguem estabelecer diálogo com a instituição, a preocupação aumenta, porque uma formação insuficiente pode trazer consequências para os estudantes e, posteriormente, para a qualidade do atendimento prestado à população”, afirmou.

O secretário-geral do SIMESC e vice-presidente da Federação Médica Brasileira (FMB), Cyro Soncini, reforçou a necessidade de que os mecanismos de avaliação sejam capazes de produzir efeitos concretos. Para ele, o processo precisa acompanhar o estudante durante a graduação e, ao mesmo tempo, responsabilizar as instituições pela qualidade da formação oferecida.

Cyro também chamou atenção para a necessidade de aproximar a formação teórica da prática médica. Na discussão, foram citadas questões como qualificação e valorização dos professores, ampliação dos campos de estágio, integração com hospitais e municípios da região e acompanhamento efetivo do desempenho dos acadêmicos.

O diretor de comunicação da Associação Catarinense de Medicina (ACM) e acadêmico da Academia de Medicina do Estado de Santa Catarina (ACAMESC), Ernani Lange de S. Thiago, destacou que uma das principais preocupações está justamente na diferença entre aquilo que está previsto no projeto pedagógico de um curso e aquilo que efetivamente acontece na formação dos estudantes. No caso da UnC, os participantes observaram que o projeto pedagógico apresenta requisitos importantes para professores, preceptores, estágios e avaliação. A questão levantada durante a reunião foi se essas diretrizes estão sendo efetivamente cumpridas na prática.

Para Ernani, a discussão precisa ultrapassar a simples análise da prova e chegar ao processo de formação como um todo. A qualificação do corpo docente, a integração entre professores e preceptores e a oferta adequada de experiências práticas são elementos fundamentais para que o estudante desenvolva não apenas conhecimento teórico, mas também habilidades necessárias ao exercício da profissão.

A preocupação com a qualidade da formação também foi relacionada pelos médicos presentes à própria realidade enfrentada atualmente pela profissão. O crescimento acelerado do número de escolas e de vagas, associado à formação considerada insuficiente em algumas instituições, pode contribuir para a desvalorização da medicina, para a precarização das relações de trabalho e, principalmente, para riscos à assistência oferecida à população.

O conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM), Marcelo Reis, abordou ainda o impacto econômico que envolve a expansão do ensino médico. Segundo ele, o mercado de educação médica movimenta bilhões de reais e reúne grandes grupos econômicos, o que torna ainda mais importante a atuação das entidades médicas na defesa de mecanismos independentes e efetivos de avaliação.

Marcelo ressaltou que o debate sobre a formação médica também precisa ser acompanhado de uma discussão sobre a representatividade das entidades médicas nas decisões que envolvem a profissão. Para ele, a expansão das escolas e a criação de mecanismos de avaliação exigem participação ativa das entidades na construção das políticas públicas.

“O que está em discussão, no fim das contas, é a qualidade da assistência médica. Nós precisamos garantir que o estudante que sai da faculdade tenha condições de exercer a medicina com segurança para ele e, principalmente, para o paciente”, afirmou.

Durante o encontro, os médicos também relataram situações observadas no cotidiano profissional que reforçam a preocupação com a formação dos novos médicos. A discussão destacou que eventuais deficiências acumuladas durante a graduação não ficam restritas às salas de aula: elas chegam aos hospitais, aos serviços de saúde e, posteriormente, aos consultórios e unidades onde esses profissionais atenderão a população.

Nesse contexto, os participantes defenderam que o resultado obtido pela UnC no Enamed deve servir como ponto de partida para uma análise profunda sobre o curso e para a adoção de medidas capazes de modificar o cenário. A avaliação de setembro será importante justamente por permitir verificar se houve evolução em relação ao desempenho anterior.

O COSEMESC seguirá acompanhando o processo e o resultado do próximo Enamed. A entidade também pretende manter a iniciativa de visitar e dialogar com cursos de Medicina que apresentarem desempenho insatisfatório, buscando conhecer as dificuldades, cobrar providências e contribuir para o aprimoramento da formação médica em Santa Catarina.

Também participaram do encontro a advogada Isidora Gesser, o colaborador Adriano Gazolla e o jornalista Eduardo Schmidt.


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